Por onde passa, um calango gigante desperta sorrisos. Atrás dele, dezenas de músicos, artistas circenses, pernas de pau, mascarados e foliões fazem das ruas de Brasília um grande palco a céu aberto. Mais do que um bloco de carnaval, o Calango Careta tornou-se um dos mais importantes movimentos de cultura popular do Distrito Federal.
Desde sua criação, em 2015, o Calango Careta vem reinventando a tradição das fanfarras brasileiras ao unir música instrumental, teatro de rua, circo, artes visuais e a identidade do Cerrado. O coletivo nasceu com uma proposta simples e, ao mesmo tempo, revolucionária: devolver as ruas às pessoas por meio da arte, promovendo um carnaval participativo, gratuito e profundamente conectado ao território brasiliense.
A marca registrada do grupo é um enorme calango articulado, conduzido sobre bambus, que serpenteia entre as árvores e superquadras da Asa Norte. Inspirado na tradição dos grandes bonecos e dragões populares, ele se tornou um dos símbolos mais reconhecidos do carnaval de Brasília. Ao seu redor desfilam personagens do Cerrado, bonecos gigantes, artistas circenses e uma potente orquestra de sopros e percussão que transforma qualquer rua em um baile coletivo.
Hoje, o Calango Careta reúne cerca de 100 artistas, organizados em três frentes: a Orquestra Camaleônica, responsável pelos sopros e arranjos; a Capivareta Repercussiva, dedicada à percussão; e a Trupe Quéro-Quéro, que leva ao cortejo performances circenses, pernas de pau e intervenções visuais. Essa combinação faz do coletivo uma experiência artística completa, onde música, teatro e ocupação do espaço público caminham juntos.
Ao contrário dos grandes eventos cercados por grades e estruturas monumentais, o Calango Careta aposta na proximidade entre artistas e público. O cortejo percorre ruas residenciais, aproximando vizinhos, crianças, idosos e famílias em um carnaval de convivência. O ponto de partida costuma ser revelado apenas poucas horas antes da saída, criando uma atmosfera de descoberta e pertencimento que já virou tradição entre os foliões.
Essa forma de ocupar a cidade transformou o grupo em uma referência da cultura de rua do Distrito Federal. Além da festa, o coletivo incorpora mensagens sobre preservação do Cerrado, convivência democrática e valorização dos espaços públicos. A presença de personagens como o saruê e a capivara reforça esse diálogo entre arte e meio ambiente, lembrando que o carnaval também pode ser um espaço de educação e consciência ambiental.
O crescimento artístico do Calango Careta também chegou aos estúdios. Em 2024, o grupo lançou o EP "Tropidurus cerratensis", reunindo seis composições autorais que traduzem para a linguagem musical toda a energia vivida nos cortejos. O repertório mistura referências de frevo, ciranda, maracatu, música popular brasileira e fanfarras contemporâneas, preservando a identidade sonora construída nas ruas de Brasília.
Entre essas composições está "Pizzarola", faixa que recentemente ganhou um videoclipe marcado pela força cênica e pela musicalidade do coletivo. A produção conta com a participação da atriz e percussionista Larissa Uimaitá, cuja presença amplia o caráter performático da obra. No vídeo, música, corpo e movimento dialogam de forma orgânica, transformando cada batida em narrativa visual e reafirmando uma característica que acompanha o Calango Careta desde sua origem: a recusa em separar música, teatro e poesia. A câmera acompanha a pulsação dos instrumentos, enquanto os gestos dos artistas parecem desenhar coreografias espontâneas, revelando que a verdadeira cena acontece no encontro entre quem toca, quem dança e quem observa.
Mais do que ilustrar uma canção, o clipe traduz o espírito do coletivo. Cada enquadramento parece lembrar que a arte não precisa de paredes para existir; basta uma rua, uma praça ou um pedaço de céu aberto para que a imaginação encontre seu palco.
Em 2025, ao completar dez anos de trajetória, o Calango Careta consolidou-se como um dos símbolos do carnaval de rua brasiliense. A celebração da década de existência incluiu novos projetos artísticos e culminou na produção do documentário "Calango Careta – 10 Anos de Eterno Carnaval", lançado no Cine Brasília. O filme registra a história de um grupo de amigos que transformou uma brincadeira em um dos movimentos culturais mais originais da capital federal.
Mas talvez a maior realização do Calango Careta não possa ser medida em números, discos ou apresentações. Seu maior patrimônio é o afeto que construiu com a cidade.
Enquanto Brasília muitas vezes é lembrada pela monumentalidade de seus edifícios, o Calango Careta recorda que uma cidade também é feita de encontros. Cada nota de trombone ecoando entre os ipês, cada tambor reverberando no concreto modernista, cada criança correndo atrás do calango gigante revela uma capital que pulsa para além dos cartões-postais.
O Calango Careta fez do Cerrado uma partitura, das ruas um palco e da convivência uma obra de arte. Em tempos de isolamento e pressa, sua fanfarra insiste em lembrar algo essencial: que a cultura acontece quando as pessoas caminham juntas.
E talvez seja essa a mais bela melodia do grupo: uma música que não termina quando o cortejo acaba, mas permanece ecoando na memória de quem acredita que as cidades também podem dançar.